Opinião / Artigos e Colunas
Ditadores não podem ser nome de escola, em hipótese alguma
*Eduardo Martins
Carta Aberta à comunidade escolar Filinto Müller de Angélica e Ivinhema:
Caros (as) colegas, é completamente fora de propósito que o país, hoje vivendo sob a égide da plena democracia, após a expulsão do exército do comando do Poder Executivo da nação, posto que ocupou inadvertidamente durante vinte um anos de ditatura, ainda tenha Escola Pública Democrática com o nome de ditadores, nesse caso o militar Filinto Müller.
Remeto-me aqui diretamente, aos colegas docentes, administrativos, estudantes e à comunidade escolar da Escola Pública, Gratuita, Laica e de Qualidade da rede básica de ensino de Mato Grosso do Sul (SED-MS). Trata-se de duas escolas localizadas nos municípios de Ivinhema-MS e Angélica-MS, na região do Vale do Ivinhema.
Inicio esta citando que na data de 11/10/2021 a Câmara municipal de São Paulo mudou o nome da rua Auro de Moura Andrade - apoiador da ditadura militar e presidente do Senado em 1964, autor do Golpe Militar – pela nome do maior poeta do modernismo do Brasil Mário de Andrade. No dia 13 de dezembro de 2021 a Universidade Federal do Rio de Janeiro revogou o título de doutor honoris causa do ditador General Médice. Na data de (década de 1980, vou investigar essa informação) a rua Filinto Müller aqui de Nova Andradina foi alterada para João Teodoro Braga - a rua da Finan.
É completamente descabido e fora da razão pedagógica que Escolas Públicas homenageiem militares torturadores e assassinos. Segundo o jornalista David Nasser “as atrocidades praticadas no Brasil pela polícia política do capitão Filinto Müller excederam, em alguns pontos, as torturas infligidas pela Gestapo aos Judeus (...)”, “difícil é comparar a maldade com a maldade (...) os policiais brasileiros esmagavam testículos com uma espécie de alicate (...) enfiavam arame nos ouvidos dos presos”, “e no canal do pênis, arames aquecidos em ponto de brasa”, “a polícia fascista brasileira esmagava o crânio dos prisioneiros até a loucura”. É o que revela o jornalista David Nasser no seu livro “Falta alguém em Nuremberg” (1966).
O chefe dessa polícia facínora foi Filinto Müller, um militar e político brasileiro. Durante o Governo Vargas, destacou-se por sua atuação como chefe da polícia política, e por diversas vezes foi acusado de promover prisões arbitrárias e a tortura de prisioneiros. Ganhou notoriedade internacional no caso da prisão de Olga Benário, à época grávida quando deportada para a Alemanha, onde seria executada em Bernburg, em 1942.
Ainda no final de 1937, logo após a instalação da ditadura do Estado Novo, Filinto havia visitado a Alemanha em caráter oficial, e lá se encontrara com Heinrich Himmler, chefe da polícia política nazista, a Gestapo. Em 1938, dirigiu o aparelho repressivo do governo. Era simpático à aproximação entre o Brasil e as potências do Eixo nazifascista; Alemanha de Hitler, Itália de Mussolini e Japão de Hiroíto.
Filinto Müller tornou-se Chefe de Polícia do então Distrito Federal em 1933 e permaneceu no cargo durante o governo Vargas até 1942, período no qual há quem afirme que cerca de vinte mil pessoas foram presas.
O repórter David Nasser, no livro “Falta alguém em Nuremberg” (1966), traça o perfil dos subordinados escolhidos por Filinto para conduzir a sua polícia política, recrutados entre a escória do exército, indivíduos cujo servilismo ao governo e brutalidade com os presos contribuíram, segundo Nasser, para as violações dos direitos humanos ocorridas na época. Faço aqui o apelo para que a comunidade escolar leia esse livro, tem disponível em PDF no google.
Sobre o livro é possível encontrar em suas páginas inúmeras denúncias praticadas pela polícia política de Getúlio Vargas, como torturas e assassinatos contra opositores do regime, por exemplo, além do trabalho investigativo que levou a prisão de Olga Benário Prestes e Harry Berger, promovido por Filinto Müller.
Foi eleito quatro vezes senador pelo Estado de Mato Grosso entre 1947 a 1973. Entre 1969 e 1973, foi presidente da Arena, o partido de sustentação do governo durante os vinte um anos da ditadura militar.
Por fim, diante do acima exposto e de posse do conhecimento histórico sobre certas figuras nefastas que povoaram o passado nebuloso e ditatorial do Brasil, não tem mais como uma Escola Pública e naturalmente democrática, local de paz, reduto de conhecimento e saberes, mas, sobretudo, de humanidade e empatia sustentar em seu nome a homenagem a uma ditador, a uma pessoa que nega a razão e a humanidade enquanto bases da vida em sociedade. Não é possível, cabível ou razoável, que uma Escola Pública Democrática e humanista homenageie pessoas afeitas à violência, à tortura e ao não-conhecimento.
Venho, por meio dessa pedir em nome da razão humanista e do conhecimento histórico que o colegiado, Grémio Estudantil, APAE e comunidade escolar em geral das Escolas Filinto Müller mude o mais rápido possível o nome dessa Escola Pública Democrática. Faça, em nome da razão e empatia. Em nome e em respeito a centenas, ou milhares de pessoas que foram presas, torturadas, exiladas e mortas por esse ditador Filinto Müller.
Fonte de algumas informações: Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Filinto_M%C3%BCller, acesso em 27/06/2021 às 09:45 mim.
*Professor de História na UFMS, campus de Nova Andradina
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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